Crimes foram registrados em cinco municípios catarinenses e envolveram companheiros ou ex-companheiros das vítimas. MPSC alerta para falhas na prevenção e aponta fatores de risco que se repetem.
Cinco mulheres foram assassinadas em Santa Catarina em um intervalo de apenas sete dias. Os crimes, registrados entre 20 e 28 de outubro, ocorreram em Faxinal dos Guedes, Ipira, Vargem, Cocal do Sul e Indaial. Em todos os casos, os suspeitos mantinham ou já haviam mantido relacionamentos afetivos com as vítimas.
A sequência de feminicídios acendeu um alerta no Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). Segundo o órgão, as circunstâncias das mortes repetem características identificadas pelo Mapa do Feminicídio, diagnóstico lançado em março deste ano para compreender os fatores que antecedem os assassinatos de mulheres por razões de gênero.
O primeiro caso ocorreu em Ipira, no dia 20 de outubro. Um homem invadiu a residência da ex-companheira, matou a mulher e transportou o corpo até um riacho. Dois dias depois, em Faxinal dos Guedes, outro homem assassinou a companheira e escondeu o corpo em uma sacola de viagem.
Em 24 de outubro, o terceiro feminicídio foi registrado em Vargem. A mulher foi morta pelo ex-companheiro na frente dos próprios filhos, deixando cinco crianças órfãs.
No dia seguinte, em Cocal do Sul, um homem atirou na cabeça da esposa enquanto ela segurava o neto do casal, um bebê. A vítima chegou a receber atendimento médico, mas não resistiu. O suspeito fugiu após o crime.
O caso mais recente aconteceu em Indaial, na quarta-feira (28). Uma mulher foi encontrada morta dentro da residência do ex-companheiro, que não havia sido localizado até a divulgação das informações pelo MPSC.
UM PADRÃO QUE SE REPETE
Apesar de terem ocorrido em municípios diferentes, os cinco crimes apresentam características semelhantes. Todos foram praticados por homens que mantinham ou haviam mantido vínculos afetivos com as vítimas e ocorreram em cidades de pequeno porte.
Para a promotora de Justiça Chimelly Louise Resenes Marcon, coordenadora-geral do Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT), os casos demonstram que os fatores de risco identificados pelo diagnóstico continuam presentes em Santa Catarina.
Segundo ela, o feminicídio não acontece de maneira aleatória. Existem sinais e circunstâncias que podem ser identificados antes que a violência chegue ao extremo.
O principal desafio, na avaliação da promotora, está na prevenção e na capacidade de proteger as mulheres antes que os crimes aconteçam. Isso exige integração entre assistência social, saúde, educação, segurança pública e sistema de Justiça, com comunicação eficiente entre os serviços de atendimento.
O TÉRMINO DO RELACIONAMENTO É UM DOS PRINCIPAIS FATORES DE RISCO
O Mapa do Feminicídio aponta que grande parte dos assassinatos acontece dentro de relações íntimas e, frequentemente, durante ou após o rompimento do relacionamento.
Em 45,8% dos casos analisados, o término da relação foi identificado como fator desencadeador da violência fatal. Outros motivos apontados foram desentendimentos diversos (24,4%), ciúmes (12,5%), suspeitas de traição (4,6%) e disputas patrimoniais (1,7%).
A promotora Chimelly Louise explica que a tentativa de exercer a própria autonomia pode aumentar a exposição da mulher à violência em relacionamentos marcados pelo controle e pela sensação de posse.
É o que acontece quando o homem não aceita o fim da relação ou não admite que a mulher tome decisões sobre a própria vida.
MUNICÍPIOS MENORES ENFRENTAM DESAFIOS NA PROTEÇÃO
Outro aspecto identificado nos cinco casos é o porte dos municípios onde os crimes aconteceram.
De acordo com o levantamento do MPSC, mulheres que vivem em cidades com menos de 50 mil habitantes podem enfrentar dificuldades adicionais para acessar serviços especializados e estruturas de proteção.
Nessas localidades, o atendimento muitas vezes está concentrado em municípios-polo, o que pode dificultar respostas rápidas diante de situações de risco.
Por isso, o Ministério Público defende o fortalecimento das redes municipais de atendimento, com capacitação de profissionais e integração entre os diferentes setores responsáveis pela proteção das mulheres.
VIOLÊNCIA DEIXA MARCAS EM FAMÍLIAS INTEIRAS
Além das cinco vidas perdidas, os crimes deixam consequências profundas para familiares e crianças. Em Vargem, cinco crianças perderam a mãe. Em Cocal do Sul, um bebê estava no colo da vítima no momento do disparo.
Para o MPSC, enfrentar o feminicídio exige ações que vão além da responsabilização dos agressores. A prevenção também passa por mudanças culturais, pelo respeito à autonomia das mulheres e pelo entendimento de que o fim de um relacionamento não pode ser motivo para violência.
COMO DENUNCIAR
Mulheres em situação de violência ou pessoas que conhecem casos de agressão podem buscar ajuda pelos seguintes canais:
- 180: Central de Atendimento à Mulher.
- 190: Polícia Militar, em situações de emergência.
- 197: Polícia Civil.
- DEAM: Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.
- NEAVIT: Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas do MPSC.
As denúncias podem ser realizadas pelos canais oficiais, com preservação do sigilo.

